Sgt Antunes
Uma experiência que deixou de ser apenas profissional e passou a fazer parte da minha própria história
Por M. Antunes — Jornalista
A Lei Federal nº 13.722/2018, conhecida como Lei Lucas, tornou ainda mais evidente a importância de conhecimentos básicos de primeiros socorros no ambiente escolar. A legislação surgiu após a morte do menino Lucas Begalli Zamora, que sofreu um engasgamento durante uma atividade escolar.
Para quem trabalha ou já trabalhou na área de emergência, situações de engasgamento fazem parte da rotina de treinamento. Como Sargento do Corpo de Bombeiros, tive algumas oportunidades de intervir em situações nas quais a aplicação correta das técnicas de desobstrução das vias aéreas foi fundamental.
Mas a história que vou contar agora não aconteceu em uma ocorrência.
Aconteceu dentro da minha própria casa.
Era uma segunda-feira…
Eu estava, como de costume, em meu escritório, que fica conjugado com minha residência, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo.
De repente, ouvi um grito de pedido de socorro vindo de minha esposa.
Ao me aproximar, deparei-me com uma cena que jamais esquecerei.
Nossa filha tinha apenas 1 ano e 8 meses. Ela estava nos braços da mãe, apresentando sinais graves de falta de oxigenação, com os lábios arroxeados e perdendo a consciência.
Naquele instante, não havia espaço para dúvida.
O conhecimento adquirido ao longo dos anos como bombeiro falou mais alto.
Peguei minha filha nos braços e iniciei imediatamente os procedimentos de desobstrução das vias aéreas, utilizando a técnica apropriada para aquela faixa etária.
Mantive a calma, e isso foi fundamental!
Realizei a sequência de intervenções indicada para um bebê, alternando os procedimentos de desobstrução. Repeti os movimentos com atenção e controle.
Até que, de repente…
O corpo estranho foi expelido.
E então veio a descoberta.
Era um pedaço de bolacha de maisena.
Minha filha havia conseguido pegar algumas bolachinhas na cozinha. Ela já começava a desenvolver maior autonomia e, naquele momento, um pequeno alimento que parecia absolutamente inofensivo transformou-se em uma emergência que poderia ter terminado de maneira muito diferente.
O conhecimento não escolhe lugar
Aquela experiência me ensinou — mais uma vez — que uma emergência pode acontecer em qualquer lugar.
No trabalho;
Na escola;
Em uma excursão;
Em um restaurante;
Ou dentro da nossa própria casa.
Quando existe uma obstrução das vias aéreas, cada segundo pode ser decisivo. Por isso, conhecer primeiros socorros não é privilégio de profissionais da emergência. É um conhecimento que pode fazer diferença até que o atendimento especializado chegue.
É justamente nesse ponto que a Lei Lucas ganha enorme importância: escolas e instituições de ensino devem estar preparadas para reconhecer situações de emergência e agir adequadamente, dentro dos protocolos de primeiros socorros.
Calma também é uma ferramenta de emergência
Em uma situação de engasgamento, o desespero pode dificultar a tomada de decisões.
A primeira atitude deve ser avaliar a situação e reconhecer se existe uma obstrução das vias aéreas.
As técnicas de desobstrução variam conforme a idade da vítima. Bebês, crianças e adultos não devem ser tratados da mesma maneira, e os procedimentos precisam seguir protocolos de primeiros socorros adequados para cada faixa etária.
Em bebês, por exemplo, são utilizadas técnicas específicas envolvendo golpes nas costas e compressões torácicas. Em adultos e crianças maiores, quando a vítima apresenta obstrução grave e está consciente, existem técnicas específicas de desobstrução que podem ser aplicadas de acordo com os protocolos de primeiros socorros.
Se a vítima perder a consciência ou a situação não for resolvida rapidamente, é fundamental acionar imediatamente o serviço de emergência e iniciar as medidas de suporte adequadas, conforme o treinamento recebido.
Naquele dia, não fui apenas o bombeiro/Socorrista;
Naquela segunda-feira, eu não estava diante de uma ocorrência qualquer…
Eu não estava fardado;
Não havia viatura;
Não havia equipe de apoio;
Não havia sirene.
Eu era simplesmente um pai diante de uma emergência envolvendo sua própria filha.
Mas todo o treinamento, toda a experiência profissional e, principalmente, a capacidade de manter a calma vieram à tona.
E o resultado foi a vida da minha filha preservada.
Hoje, quando olho para trás, percebo que aquela ocorrência particular reforçou uma convicção que sempre carreguei comigo:
APRENDER PRIMEIROS SOCORROS É APRENDER A PRESERVAR VIDAS.
Que a história da minha filha sirva também como alerta!
Uma criança pode se engasgar com um alimento aparentemente simples. Uma emergência pode acontecer em segundos. E, quando isso acontece, o conhecimento pode ser a diferença entre o desespero e uma intervenção capaz de preservar uma vida.
Conhecimento salva, a prevenção protege!
Diante de uma emergência, manter a calma pode fazer toda a diferença….
M. ANTUNES
Jornalista
Relato pessoal baseado em experiência vivenciada pelo autor. As orientações de primeiros socorros devem ser aprendidas em treinamento específico e seguir os protocolos oficiais e atualizados para cada faixa etária e situação.











