Bombeiros Brasileiros

PorLia Nara Bau

O que a história ensina sobre os desastres em Santa Catarina

Por Alesc – Quem vive em Santa Catarina dificilmente esquece os anos em que a água tomou conta das ruas, interrompeu estradas, invadiu casas e mudou a rotina de milhares de famílias.

As enchentes de 1983, 1984, 2008, 2011 e, mais recentemente, os eventos extremos registrados em 2023 permanecem na memória coletiva dos catarinenses.

Mais do que fenômenos climáticos, esses episódios ajudaram a moldar a forma como o estado passou a compreender e enfrentar os desastres naturais.

Essa memória coletiva ajuda a explicar por que os grandes desastres não começaram com o El Niño. Elas acompanham o desenvolvimento do estado desde o processo de colonização.

O que mudou, segundo os pesquisadores, foi a forma como a sociedade passou a ocupar o território.

Nas últimas décadas, o crescimento das cidades avançou sobre margens de rios, planícies de inundação e encostas, reduzindo áreas naturais capazes de absorver o excesso de água e aumentando a exposição da população aos eventos extremos.

Para o pesquisador em História Ambiental da Universidade Regional de Blumenau (FURB), Martin Stabel Garrote, é justamente essa combinação entre fenômenos naturais e ocupação do território que explica por que eventos semelhantes produzem impactos cada vez maiores.

“O El Niño não explica sozinho os grandes desastres. O problema está na interação entre os fenômenos climáticos e a vulnerabilidade construída historicamente pela forma como ocupamos o território.”

Segundo o pesquisador, episódios como as enchentes de 1983, 1984, 2008, 2011 e 2023 representam marcos importantes da história catarinense porque transformaram não apenas a paisagem, mas também a forma como o Estado passou a compreender os desastres.

As tragédias impulsionaram avanços na meteorologia, fortaleceram a Defesa Civil, ampliaram o monitoramento hidrológico e aproximaram universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos.

Mas também deixaram uma lição importante. “O problema não está apenas na intensidade das chuvas. Grande parte dos impactos decorre da vulnerabilidade criada pelas escolhas feitas ao longo do tempo.”

As Grandes Enchentes de 1983

Durante o ano de 1983, um dos mais intensos eventos de El Niño do século XX trouxe chuvas ininterruptas para Santa Catarina. O Vale do Itajaí foi severamente impactado, com cidades enfrentando inundações históricas.

As águas deixaram dezenas de milhares de desabrigados e causaram o isolamento de municípios inteiros, forçando o governo a reestruturar a forma como o estado lidava com a Defesa Civil.

O desafio não termina quando a chuva passa

Reconstruir cidades depois de uma enchente sempre mobiliza recursos, solidariedade e esforço coletivo.

Entretanto, para os especialistas, o maior investimento precisa acontecer antes que o desastre ocorra. Martin Garrote chama atenção para um aspecto que costuma passar despercebido: historicamente, o Brasil investe mais na reconstrução do que na prevenção. 

“O principal erro foi ocupar sistematicamente áreas sujeitas às cheias e aos movimentos de massa, ignorando a dinâmica dos rios e das encostas.”

Segundo ele, a experiência acumulada por Santa Catarina demonstra que proteger matas ciliares, preservar encostas e respeitar áreas de inundação não significa impedir o desenvolvimento das cidades.

Pelo contrário. “Proteger os processos ecológicos também significa proteger vidas, patrimônio e o próprio desenvolvimento regional.”

O pesquisador defende que ciência e planejamento territorial caminhem lado a lado.

“O conhecimento científico necessário para compreender muitos desses riscos já existe. O grande desafio é transformar esse conhecimento em políticas públicas permanentes.”

A mesma avaliação é compartilhada pelo diretor substituto do Cemaden, Pedro Camarinha. Segundo ele, os sistemas de alerta representam apenas a última camada de proteção.

“O correto é que os investimentos aconteçam muito antes dos alertas, com planejamento urbano, infraestrutura, conservação ambiental, educação para redução de riscos e gestão adequada do território.”

Nos últimos anos, o Cemaden ampliou significativamente sua estrutura de monitoramento. Atualmente, a instituição conta com uma das maiores redes de pluviômetros automáticos do mundo, além de estações hidrológicas, sensores de umidade do solo, radares e sistemas computacionais cada vez mais sofisticados.

Mesmo assim, Camarinha lembra que nenhuma tecnologia consegue eliminar completamente os riscos quando cidades continuam crescendo sobre áreas vulneráveis.

“As mudanças climáticas tornam os eventos extremos mais frequentes e mais intensos. Isso exige uma evolução permanente das tecnologias, mas também das políticas públicas.”

A informação também salva vidas

Embora o avanço da ciência permita compreender cada vez melhor o comportamento da atmosfera, nenhuma previsão elimina totalmente as incertezas.

A meteorologia trabalha com probabilidades. Por isso, os especialistas reforçam que acompanhar diariamente as atualizações oficiais continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir riscos.

Segundo a meteorologista da Epagri/Ciram Gilsânia de Souza Cruz, o fato de o El Niño indicar uma tendência de aumento das chuvas não significa que choverá todos os dias ou que todas as regiões enfrentarão grandes desastres.

Cada evento possui características próprias e os modelos meteorológicos são atualizados continuamente.

Ela também faz um alerta para a circulação de informações sem respaldo técnico nas redes sociais.

“É importante buscar informações nos órgãos oficiais. Mensagens alarmistas, muitas vezes sem qualquer fundamento científico, acabam gerando medo desnecessário e dificultam o trabalho de prevenção.”

Para a meteorologista, a palavra que deve orientar a população nos próximos meses é cautela.

“Não adianta sofrer por antecipação. Precisamos acompanhar um dia de cada vez, observar as previsões e confiar nas informações divulgadas pelos órgãos oficiais.”

O pesquisador Martin Garrote acrescenta que a própria história de Santa Catarina mostra a importância de preservar a memória dos grandes desastres.

Segundo ele, cidades como Blumenau, Rio do Sul e Brusque desenvolveram, ao longo das décadas, uma cultura de acompanhamento dos níveis dos rios e dos alertas meteorológicos. No entanto, essa memória pode se perder com o tempo.

“A educação para redução de riscos precisa manter viva a memória das tragédias. Quando esquecemos o que aconteceu, aumentamos novamente nossa vulnerabilidade.”

Enquanto o Oceano Pacífico continua aquecendo, equipes da Epagri/Ciram, do Cemaden, da Defesa Civil e de diversas instituições científicas seguem monitorando cada mudança na atmosfera.

Em Santa Catarina, o desafio é transformar esse conhecimento em prevenção, antecipando riscos, orientando decisões e fortalecendo a capacidade de resposta do poder público e da população.

Afinal, diante de um fenômeno que não pode ser evitado, a informação de qualidade continua sendo uma das ferramentas mais importantes para proteger vidas.

Foto: Ascom/Cemaden
Fonte: https://revistaemergencia.com.br/geral/o-que-a-historia-ensina-sobre-os-desastres-em-santa-catarina/