Bombeiros Brasileiros

Foto: Voluntersul

Um mês após terremotos, ajuda humanitária segue na Venezuela

Por: Lia Nara Bau

Por Redação Emergência, com informações de Médicos Sem Fronteiras, Hospital Einstein, Voluntersul e g1 – Um mês após os terremotos que assolaram a Venezuela, a população ainda enfrenta condições extremamente precárias. Além do luto pela perda de familiares, amigos e bens materiais, milhares de pessoas seguem sem moradia adequada e com acesso limitado a serviços básicos. O desastre, que atingiu especialmente o estado costeiro de La Guaira, próximo a Caracas, evoluiu para uma crise humanitária complexa e prolongada.

Em Maiquetía, no estado de La Guaira, cerca de 3.000 pessoas permanecem acampadas nas calçadas diante de 20 edifícios severamente danificados. Situação semelhante ocorre na Avenida Bolívar, em Caracas, onde aproximadamente 3.000 pessoas vivem nas ruas, sem abrigo adequado e acesso regular a serviços essenciais. 

Por isso, diversos órgãos, inclusive brasileiros, mantêm ajuda humanitária na região, levando assistência para a população local.

Hospital Einstein

O hospital Einstein, de São Paulo, se mobilizou em uma missão humanitária que está integrada ao plano estruturado de resposta humanitária já conduzido pela Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira, em articulação com a Convenção Batista Venezuelana. Dentro dessa estrutura, o Einstein apoiou a operação por meio da capacitação das equipes locais, do fortalecimento da atuação assistencial da igreja e da oferta de apoio psicossocial em parceria com profissionais e organizações locais.

A operação contou com 10 profissionais do Einstein, entre médicos, enfermeiros e especialistas de diferentes áreas. A frente de saúde mental e apoio psicossocial foi desenvolvida em parceria com a Somos Humana e profissionais locais, ampliando a capacidade de resposta e a continuidade do cuidado no território. A iniciativa também previu a capacitação de 20 a 40 psicólogos para atuação em contextos de desastre.

A operação realizou mais de 600 atendimentos, incluindo ações em dois abrigos, onde as equipes ofereceram curativos, triagem e encaminhamento para os serviços disponíveis.

Vista aérea de um prédio danificado em Caraballeda, estado de La Guaira, Venezuela, em 30 de junho de 2026 | Crédito: Miguel Medina / Pool / AFP

Médicos Sem fronteiras

A organização MSF (Médicos Sem Fronteiras) mantém quatro clínicas móveis nas áreas mais afetadas: três em La Guaira, nas cidades de Maiquetía, Catia La Mar e Tanaguarena, e uma em Caracas. As equipes oferecem atendimento de atenção primária à saúde, apoio em saúde mental, atividades de promoção da saúde e ações voltadas ao acesso à água, saneamento e higiene. Ao longo do último mês, as equipes médicas de MSF realizaram 2.217 consultas.

A busca por familiares desaparecidos, a perda repentina de entes queridos, a destruição dos lares e o deslocamento forçado agravaram significativamente o sofrimento psicológico da população. Para responder a essa necessidade crescente, MSF incorporou o apoio psicossocial à sua resposta de emergência, realizando 113 sessões individuais de saúde mental, 323 sessões de terapia em grupo e 1.402 sessões psicoeducacionais. 

Com a infraestrutura local severamente comprometida, as equipes também implementaram ações para ampliar o acesso à água potável e reduzir riscos à saúde pública. Entre as principais atividades estão a instalação de um reservatório com capacidade para 5.000 litros em Playa Verde, a cloração contínua de quatro pontos de distribuição de água com monitoramento permanente da qualidade e a distribuição de 5.000 garrafas de água potável para famílias que vivem nas ruas. 

A resposta humanitária também mobilizou uma ampla operação logística. Desde o início da emergência, MSF doou cerca de 8,5 toneladas de suprimentos médicos, apoiando operações de salvamento e contribuindo para atender às necessidades de saúde de aproximadamente 10 mil pacientes. 

Voluntersul

A Voluntersul (Associação de Bombeiros Voluntários do Estado do Rio Grande do Sul) esteve na Venezuela, em missão humanitária, auxiliando nas buscas por vítimas dos terremotos. 

Integraram a missão Anderson Jociel, de São Sebastião do Caí, Salatiel Slongo, de Caxias do Sul, e Marcelo Bidone, de Nova Petrópolis. 

O presidente da Voluntersul, Anderson Jociel, explicou que os três integrantes da missão são especialistas em busca e salvamento, com ampla experiência na área de urgência e emergência. “Atuamos com a célula na qual fazemos parte, na região de La Guaira. Estávamos integrados com socorristas do México, Argentina, Paraguai, Chile, Estados Unidos, Israel e várias outras nacionalidades”, detalhou. 

Para auxiliar nos resgates, ele falou que foram utilizados equipamentos tecnológicos como Sonar e câmera térmica. “Além disso, usamos maquinários pesados para remoção de escombros e técnicas específicas de busca e resgate em estruturas colapsadas”, sublinhou.

Outras ações

O Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres) do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional do Brasil também esteve em missão humanitária no país. Participaram da missão grupos da Defesa Civil e do Corpos de Bombeiros, além da Anatel  (Agência Nacional de Telecomunicações). Além dos militares e profissionais, ainda foram levadas 15 toneladas de medicamentos, insumos médicos e equipamentos. 

Também o Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) esteve à frente de ações de apoio aos profissionais de enfermagem venezuelanos afetados pelos terremotos. As medidas incluem acolhimento em saúde mental, cooperação técnica internacional e um levantamento da situação dos trabalhadores atingidos. 

Um levantamento preliminar identificou, pelo menos, 400 profissionais de enfermagem diretamente afetados pelo desastre, entre trabalhadores que perderam suas residências, sofreram prejuízos materiais, tiveram suas atividades interrompidas ou enfrentam sobrecarga física, emocional e psicossocial em razão da resposta à emergência. 

Pode acontecer no Brasil?

ragédias como essa da Venezuela sempre despertam o receio de que algo parecido possa ocorrer no Brasil. Entretanto, o geólogo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), Marcelo Gramani, frisa que o Brasil não tem potencial para terremotos semelhantes, pois está posicionado na região central da placa tectônica sul-americana, onde a atividade sísmica é baixa a muito baixa. “Essa condição geológica proporciona uma estabilidade tectônica e não há possibilidade de eventuais movimentações. O país registra tremores, mas eles costumam ser de baixa magnitude e muito menos intensos que os ocorridos em regiões de encontro e limites entre placas. Nestes locais a energia dissipada é muito grande”, explica.

Contudo, podemos sentir, eventualmente, efeitos de terremotos nos países vizinhos. Como aconteceu neste terremoto da Venezuela. A Rede Sismográfica Brasileira informou que os terremotos foram registrados por estações de monitoramento no Brasil e sentidos por moradores de cidades da Região Norte. Houve relatos de tremores em Belém, Manaus, Boa Vista e Macapá, além de outros municípios desses estados.

Gramani destaca que o Brasil possui sistemas e redes de monitoramento e órgãos de defesa civil espalhados por muitas regiões do país. Entretanto, ainda precisa ampliar planos de resposta para efeitos secundários dos terremotos e que podem provocar intensas movimentações do terreno. “Adicionalmente, nossas construções não são projetadas para resistir a estes fenômenos, as equipes não possuem capacitação específica e a população não está treinada e informada sobre como agir. É muito comum que terremotos fortes em países vizinhos possam ser sentidos nos municípios brasileiros e exigir ações de prevenção e emergência”, sublinha.

Para o geólogo, terremotos desta magnitude trazem ensinamentos para o nosso país. Segundo ele, mostram a importância de investir em monitoramento, planejamento urbano, infraestrutura resistente e educação para emergências. “Mesmo com baixo risco aqui no Brasil, estar preparado reduz impactos e fortalece a capacidade de resposta a desastres”, avalia.

Relembre a tragédia

O desastre que atingiu a Venezuela, em 24 de junho, foi caracterizado por dois terremotos sísmicos de magnitudes 7,2 e 7,5, provocando intensa destruição estrutural e o colapso dos serviços de emergência. Até o momento, são contabilizadas 4.500 mortes, 18 mil pessoas feridas e milhares de pessoas desalojadas, em um dos cenários humanitários mais desafiadores enfrentados recentemente pelo país.

O número oficial de deslocados chega a 17.907 e 6.462 vítimas foram resgatadas dos escombros. A destruição também deixou um rastro de danos severos à infraestrutura: 190 edifícios desabaram completamente e mais de 895 estruturas, entre escolas, hospitais e outros serviços públicos essenciais, foram gravemente afetadas e seguem sob risco de colapso. 

Fonte: https://revistaemergencia.com.br/geral/um-mes-apos-terremotos-ajuda-humanitaria-segue-na-venezuela/